Thursday, May 8, 2014

7 de Abril

Maternidade

Ela tinha nove meses, nove meses e três dias quando começaram os choros.  Eram quatro da manhã e ela abria o berreiro. Gritava em seu quartinho tão alto, tão forte...  Que eu sentia as portas vibrarem no som do choro dela  mesmo quando ela não estava chorando. 
Ela ficava quieta a maior parte do tempo, ela se comportava bem, mas eram as noites que me desesperava. 
Começava devagar, como se ela estivesse esperando que eu fosse até lá, então eu me escondia e, baixo das cobertas e espera que passasse.  
Eu me sentia mal, eu me sentia cheia culpa, mas não movia-me da minha cama, e era nesse momento que ela começava a berrar, a gritar, a fazer um escândalo que eu não conseguia controlar. 
Batia nas têmporas tentando não escutar o choro dela, eu cantava, mas não podia bloquear aquele som, era a minha filha...  Como eu poderia ignorar aquilo?
  Ela estava com quase dez meses quando eu resolvi dar um fim aquilo. Acordei cedo, cansada e esgotada, coloquei meu vestido preto, passei na floricultura e comprei uma flor branca, sempre gostei de flores brancas, especialmente para o que eu estava indo fazer. 
Eu ajoelhei-me para entregar as flores para minha filha, as coloquei na terra fria e disse calmamente :
- Meu querido anjinho, você precisa deixar a mamãe dormir, eu já cuidei de tudo, e estou trazendo as flores que você gosta. Agora é hora de deixar a mamãe dormir...
Eu disse para a lápide branca de onde fora enterrado a minha primeira e única filha, mas naquela noite eu também não consegui dormir.


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