Saturday, May 3, 2014

3 de Maio

Os Sete

Flor

Flor é uma jovem de 21 anos e ela gosta de pensar em si mesma como uma pessoa pratica, mesmo que às vezes sua mãe lhe diga o oposto.
Ela era um pequeno jardim em suas cores, os cabelos que mesclavam as cores das mais delicadas margaridas, os olhos verdes como um terno craveiro, as bochechas e lábios rosados com uma rara orquídea. Não é de se admirar que a jovem tenha recebido o nome de Flor.
E era essa jovem de tantas cores que estava na floricultura   quando chegou o caminhão.
Era grande, como ela nunca tinha visto antes, e de dentro daquele enorme caminhão vieram caixas e mais caixas, uma após a outra. Carregadas por homes de olhos baixo e testas suadas.
Não eram caixas iguais, nem havia um padrão. Algumas eram grandes baús de madeira e aço, outras eram simples caixas de mudança, umas tinham letras escritas outras eram completamente brancas... Pareciam vir de todas as partes do mundo.
Flor observava o entrar e sair dos homens no caminhão e se perguntava da onde vieram tantas caixas... E quanto mais se perguntava, mais caixas saiam do caminhão e entravam na casa vizinha. Parecia que não haveria fim.
–Nossos novos vizinhos – Disse a mãe de Flor.
– Eles vão morar na casa velha? – Questionou a jovem
A casa velha era como Flor e todos os que moravam na rua dela chamavam a casa do antigo Seu Antonio, ele era dono de uma sapataria e gostava de dizer a todos que aquela era a casa mais velha de toda a cidade e que foi construída pelo pai dele... Ou seria seu avô?
O fato é que quando Seu Antonio morreu a casa foi abandonada, e estava caindo aos pedaços desde então, alguns diziam que havia sido herdada por um dos filhos de Seu Antonio, outros falaram que ele mandou vender em testamento, mas a verdade era, a casa era velha, estava para ser vendida, e ninguém parecia querer comprar a tal casa. Passaram-se tantos anos, tantas pessoas vieram olhar a tal casa, e tantas foram embora sem  nunca mais voltar... Ninguém na rua realmente acreditou que seria vendida.
Então aquele caminhão chegou...
Flor podia sentir a mudança chegando. Era como um tempestade, primeiro vinha um vento estranho, que mexia os pensamentos dela como folhas soltas na estrada, depois eram os barulhos, como perguntas sendo sussurradas em seu ouvido, e ai... Nada seria mais o mesmo. Ela podia sentir as coisas acontecendo ao redor dela,  ela podia ver como o mundo que ela conhecia tão bem se modificava, uma célula de cada vez, uma caixa de cada vez.
 A vida dela jamais seria a mesma. Disso ela tinha razão, faltava apenas saber o porquê disso.
Presa em seus pensamentos, que se moviam em sincronia com a entrada e saída de homens suados da casa velha, Flor por pouco não percebeu a sequencia de fatos que ocorreu. Primeiros três carros estacionariam, depois pessoas saíram dos carros e foi ai que ela soube por que sua vida mudaria de sentido completamente.
Os carros eram todos pretos, mas de modelos diferentes, eles estacionaram um seguido do outro, não ao mesmo tempo, mas em uma estranha sequência, pareceu-lhe, no entanto perfeito, assim ela pôde observar detalhadamente cada uma das pessoas que iriam ocupar a casa vizinha.
Do primeiro, um modelo esportivo e com um designe moderno e parecia ser bem caro, desceu uma jovem de cabelos claros e longos,um rosto anguloso e forte, seus olhos estavam cobertos por óculos escuros de lente preta, vestia uma roupa simples mas, uma jaqueta de couro. De verdade! Caminhava sozinha depois que trancou o carro, carregou a mochila bastante grande em um obro só, parou na porta e observou o céu silenciosamente, ao escutar o segundo carro chegando, entrou.
Flor a observou curiosa, a garota não parecia muito mais velha que ela mesma, mas havia algo na postura dela, tão ereta, tão imponente, a fez pensar em antigas Rainhas de terras distantes, Flor estava sorrindo para si mesma quando as pessoas começaram a sair do segundo carro.
Este era um modelo bem diferente, parecia um jipe, mas diferente, estava sujo e bem velho, no entanto parecia bem mais amigável que o primeiro carro, e as pessoas que de lá desceram, dois rapazes e uma moça, tinha uma aparência muito mais interessante.
 Ela de cabelos platinados, vestia um belo vestido verde que brilhava a luz clara do sol, sorria de algo enquanto o vento beijava-lhe os cabelos, Flor sentiu a face enrubescer, a jovem era linda... Mais do que isso, era encantadora, fabulosa, maravilhosa... O sorriso era honesto, puro... Parecia que quando ela andava conseguia atrair os olhos de todas as pessoa nos arredores, na rua, no bairro no mundo... A existência do mundo poderia se resumir a simples observação daquela garota que não parecia ter mais do que désseis anos.
Flor poderia ter perdido a tarde observando aquela beldade se não fosse pelo som de outra risada, uma masculina. Veio de um rapaz de cabelos muito escuros dispostos em um corte  único, por falta de palavra melhor. Ele que caminhava alegremente atrás da deusa, era altíssimo e muito magro também, a pele pálida e alva quase não se percebia por baixo de todas suas tatuagens, as figuras cobriam-lhe os braços, o pescoço... Era um rapaz com um belo sorriso e olhos incrivelmente belos, mesmo visto de longe, claros, azuis como o céu nos dias sem nuvens.
Ele estava pulando e fazendo gracinhas para a jovem deusa da beleza, ela ria graciosamente dele, jogava o cabelo e sacudia a cabeça, e com isso, enfeitiçava a todos por ali.
  Por fim outro rapaz saiu do mesmo carro,ela não estava rindo, observava a brincadeira dos outros dois, mas não participava mantinha certa distancia, e não tirava s olhos do rapaz de cabelos escuros.  Tinha cabelos de fogo e usava uma roupa simples e muito elegante, segurava um livro de encadernação preta , anotava coisas com impaciência, e embora fosse o última a sair do carro, chegou primeiro a porta e ficou esperando os outros dois chegarem.
Flor não achou o ultimo rapaz particularmente atraente, nem o primeiro se ela tivesse que ser honesta, mas o jovem de cabelos de fogo passou-lhe uma imagem forte, como a de um cavaleiro. Um ser que saiu de contos de fadas, pronto para se atirar na frente de uma bala por sua donzela. Talvez fosse a própria fantasia que fez com que Flor quisesse conhecê-lo.
Ela pensava em qual seriam as flores que ela levaria para seus novos vizinhos a fim de iniciar uma conversa com o cabelos-de-fogo quando os ocupantes do  terceiro carro saíssem de dentro do veiculo antigo.
Primeiro foi um casal, como Flor sabia disso? Ao saírem ela a tomou nos braços e a beijou. Não é necessário ser um consultor detetive para deduzir isso.
A mulher que recebia o beijo tinha uma majestosa pele escura, formas  delicadas  e cabelos tão escuros que fariam a noite empalidecer. Em uma palavra: Linda. Entre beijos e sorriso ela olhava, cheia de amores, para os pálidos olhos do homem,  alto e magro ele parecia estar na fina linha entre a saúde e a doença. Ainda que o rosto dele estivesse meio coberto pelo rosto dela, Flor podia ver que ele parecia... Frágil, cansado. Olheiras profundas e maçãs do rosto saltadas fizeram como que Flor lembrasse-se  daquele rapaz da rua que estava em reabilitação por uso de drogas pesadas...
Ela achou que o casal seriam os últimos a entrar na casa, mas como ela se enganou... Não eram seis vizinhos que ela teria...
Eram sete.
O ultimo rapaz saiu do mesmo carro que o casal, mas não entou direto na casa como os outros haviam feito, ele caminhou lentamente até o jardim, observou a grama morta, e as poucas ervas daninhas que ali crescia e sentou-se na calçada, e ainda que ele estivesse usando óculos, algo em Flor a fez acreditar que ele... Ele estava olhando para ela.
Flor mal podia vê-lo, mas quando seus olhos pousaram no rosto dele... Ela sentiu seu coração dar um duplo twist carpado  dento de seu peito. E o ar pareceu perde-se no caminho a seus pulmões... Havia algo nele.
Era uma estranha vibração no ar, algo diferente, estático, como se o mundo ao redor dela estivesse levantando os finos cabelinhos de sua nuca, ou talvez fosse o simples arrepio que ela sentiu quando imaginou como seriam os olhos que aquele rapaz escondia por trás dos óculos dele?
Fosse o que fosse, aquela sensação deixou Flor tão desconcertada, tão vermelha, tão sem ar  que sua mãe deu-lhe um cutucão com o cotovelo com um sorriso gatuno em seus lábios maternais.
–Minha filha se você continuar a encarar o rapaz assim seu olhos vão virar.
– Mãe! –  Disse Flor ficando um pouco nervosa consigo mesma e resolveu ir para dentro da floricultora arrumar o c que fazer da vida. Isso seria muito mais útil que observar belos estranhos sentados na calçada.
Estava quase na hora de abrir, e ela tinha que cortar a haste de outras tantas rosas, e arrumar as fitas e os embrulhos, será que ela já tinha que regar as azaleias? Ela tinha que colher os cravos.
Será que ele estava mesmo olhando para ela?
Será que ele... Será que ele realmente a olhou?
E foi por aquilo que o ar, e a eletricidade se misturaram dentro dela?
Talvez... Talvez fosse... Ou podia ser só aquela estranha arritmia que ela sentiu quando viu as caixas.


Flor tinha muitas hipóteses e poucas respostas, mas tudo aquilo foi sumindo de sua cabeça enquanto ela trabalhava , o aroma das flores fez com que ela quase esquecesse dos novos vizinhos, das caixas, daqueles óculos escuros... Quase.
Ela teria esquecido se não tivesse escutado uma criança cantando uma canção antiga na frente da floricultura.

"E se tudo falhar
Bela dama de puro sangue
Lembre-se do amor, mas esqueça amar
Os belos rapazes
Que o tempo não pode tocar"



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