Saturday, May 31, 2014

26 de Maio

Direções Infinitas.

Familia?
Parte I


Era mais uma daquelas visitas que Ana temia... Visita de família.
A família dela entendia até certo ponto, sabiam que ela vivia com dois rapazes, que ambos a respeitavam e a tratavam bem, que os três dormiam em uma cama que o mais novo havia projetado (Guilherme) e que o mais velho (Thiago) era quem cuidava das contas para que eles tivessem conforto e ainda sim pudesse fazer uma poupança. 
Um resumo simples do que a família de Ana sabia sobre o relacionamento dela com Thiago e Guilherme era: Ana estava feliz e era isso que importava. 
Para a maioria da família dela era isso que importava... Mas havia lados mais ásperos. 
Jorge Cavalcante, o patriarca da pequena família Cavalcante, era o quinto homem de sua família que se formavam em engenharia e depois disso iam trabalhar na mesma empresa... Ana foi a primeira mulher em cinco gerações... Ganhou blocos de lego em vez de barbies, e kits de construções em vez de fogões de plástico... Não precisa dizer muito mais que isso para entender que quando ela largou a faculdade para fazer bebidas em um bar...
As coisas não foram exatamente aceitas pra Jorge. 
Nervosa, Ana caminhava de um lado para outro dentro do quarto, arrumando o cabelo, recém pintado de castanho, de maneira frenética. Guilherme, que estava sentado no meio da gigantesca cama piscou lentamente enquanto a observava. 
- Minha flor, não importa quantas vezes você mude a posição do grampo, seu cabelo vai continuar igual.
- Não! -Ana resmungou pela quarta vez ao ver uma mecha se soltar.
Guilherme levantou-se, caminhou lentamente até ela e puxou os grampos de seus longos cabelos e sorriu novamente. 
- Bem melhor. - Ele beijou o rosto dela e sorriu - Prefiro você assim...
Antes que Ana pudesse retribuir o beijo, soou de longe a campainha e Ana deu um gritinho histérico e recomeçou a arrumar o cabelo, o vestido, os sapatos e jogar peças de roupa para que Guilherme pudesse vestir-se apropriadamente.
Correndo para a sala, Ana abriu a porta a recebeu o pai com um sorriso nervoso.
- Olá papai- ela disse abraçando Jorge.
-Aninha querida- ele disse docemente e entrou pela casa.
Guilherme e Thiago vieram, cada um de um lado, Guilherme do quarto, Thiago da cozinha. Ambos sorriram para Jorge, que apenas acenou de leve com a cabeça. 
- Como vai senhor Jorge, é um prazer recebê-lo.- Guilherme lambeu os lábios e apressou-se em dizer - Uma pena que não posso ficar, tenho que comprar umas... Coisas no mercado, mas por favor, fique á vontade.
Guilherme não precisava sair, mas sabia muito bem, embora nada fosse dito, que Jorge não gostava muito dele. Jorge acredita que Guilherme era a causa dos 'problemas' da filha. Thiago era o homem perfeito, jovem, advogado...
 Guilherme era um jogador de video-game que nada fazia e nada servia.
A porta se fechou e Thiago apertou a mão de Jorge, ele também sabia dos sentimentos do sogro, e honestamente, não gostava nada disso...
Ele amava Guilherme da mesma forma que amava Ana, e ver que Guigo sentia-se tão mal quando Jorge estava por perto que preferia sair de casa... 
- Ana disse que o senhor vinha para cá, resolvi fazer algo para o semhor comer. Gosta de camarões.
Jorge sorriu e olhou para Ana 
- Gosto de camarão sim, mas avisei a Ana que não iria poder ficar muito tempo, vim á trabalho e mão posso demorar.
 - Então eu vou correndo pra cozinha- Thiago disse e deixou Ana e Jorge á sós.
E lá estavam eles duas faces da mesma família sentadas frente a frente com idênticos sorrisos amarelos e a falta do que dizer estampado em diferentes rostos, não havia muito o que ser dito e ainda sim aquele silencio demandava palavras. 
- Como está a mamãe?- perguntou Ana quebrando o silêncio 
- Ela está bem, sua irmã decidiu decorara a sala... A casa está uma bagunça- ele riu levemente 
- A Carolina sempre foi muito... Criativa... Ela riu um pouco brincando com a ponta dos cabelos 
- Verdade... Mas. Esta ficando bonito... Muito verde e flores...- Ele olhou ao redor dele. - Parecido com a sua sala...
- Ela veio aqui quando o Gui e eu estávamos redecorando...
Jorge lambeu os lábios, notavelmente desconfortável, era sempre assim, quando se mencionava o nome de Guilherme, o pai da Ana já estava , como ela mesma dizia, de bico. 
- De novo? - Ela perguntou sem nem precisar dizer o que estava acontecendo
- O que quer dizer com isso Ana? - Perguntou Jorge tentando manter-se um homem civilizado, 
Ana explodiu levantou-se da mesa com a mesma força e ferocidade que suas palavras que voavam da boca em rasantes certeiros para acertar o pai.
-Chega pai, Che-ga! Eu não aguento mais isso, você está na minha casa, no meu espaço, no lugar que eu e OS MEUS NAMORADOS compramos e mantemos muito bem obrigada. Eu trabalho no lugar que eu gosto, eu estou cercada das pessoas que eu amo e NÃO eu não sou uma puta, uma vadiazinha, não sou a ovelha negra da família. Eu apenas estou seguindo o meu caminho ao invés de fazer o que você quer pai. Eu DETESTO engenharia, eu não quero nem VOU escolher um dos meninos para casar. Você respeita o Thiago e deveria fazer o mesmo com o Guilherme! Ele também me faz feliz...
Ela estava sem voz, sem fôlego, Thiago observava a cena com um certo desconforto da porta. Jorge, em sua completa palidez lambeu os lábios lentamente, levantou-se e sem falar nada, foi embora. 
Ana desabou no sofá, lágrimas e soluços, tristeza e desespero. Aconteceu exatamente o que ela temia, e o pai dela foi-se, e com ele tudo o que ela conhecia por família... 

Thiago sentou ao lado dela, envolvendo-a em um delicado abraço, cuidava das lágrimas que caiam misturados nos soluços silenciosos. Ele não sabia o que fazer, mas sabia que não podia deixa-la só... Ela não merecia sentir aquilo tudo sem ninguém por perto. 

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